A EDUCAÇÃO E O DESTINO INTERIOR

A EDUCAÇÃO E O DESTINO INTERIOR
POR LEONARDO MAIA

 

Como fortalecer o impulso natural da criança de ir em direção ao mundo, com autonomia, direção e propósitos próprios? Como manter sua confiança anímica e desenvolvimento de sua individualidade?

Nós deveríamos criar as condições necessárias para o desenvolvimento da individualidade da criança em harmonia com o desenvolvimento social. Para que ela possa atuar no mundo positivamente à partir de si mesma e que seu impacto seja salubre tanto para si, como para o ambiente e o outro ser humano. Conectadas com o que trazem verdadeiramente dentro de si e não com direções e propósitos externos pré estabelecidos, que é o que enfraquece o contato com a sua própria individualidade, o “EU” da criança, pois mesmo que a criança se desenvolva intelectualmente e fisiologicamente, ela perde a autonomia e propósito próprios. Ela tem um caminho de atuação delineado externamente, podendo gerar falta de sentido.

Quando lutamos apenas para nos encaixar nas diretrizes exigidas, isso nos desgasta tanto física e emocionalmente, gerando um nível de estresse muito grande: um verdadeiro vazio interior.
A realização passa a se vincular no nível mais superficial, como prazeres sensoriais: consumo, sexo, entorpecimento (álcool e outras drogas), diversão, a busca por um parceiro emocional e etc… Isso explica a tendência de muitos adolescentes buscarem na balada sua realização ou alívio de suas batalhas para se encaixar no padrão exigido socialmente (sexo, drogas e diversão).

Mesmo adultos, nossos objetivos continuam a ser reconhecimento social, consumo, relacionamentos, entorpecimento (vamos beber para esquecer o estresse do dia a dia), tudo para sair do nível de estresse da luta pelo encaixe social (emprego, estabilidade financeira e etc…).

Muitos de nós hoje que tivemos esse processo educacional tradicional, temos essa dificuldade de não saber direito o propósito da vida, o que nós buscamos realmente. A gente se encaixa e às vezes nos realizamos dentro do padrão que foi delineado pela sociedade, mas o propósito particular, interior, muita gente perdeu completamente o contato.

Fatores que contribuem para o enfraquecimento deste impulso de atuação no mundo a partir de si próprio:

Falta de autonomia e liberdade de ação principalmente por vínculo ao medo e a insegurança: quem vive em cidade grande sabe que tem que ter um zelo muito grande com a criança, não pode isso, não pode aquilo, desce daí, aí é perigoso, não sai de perto… a criança não tem espaço pra atuar a partir de si, tudo vai depender de uma autorização externa. O ideal é que ela possa brincar no parque, no quintal, perto da natureza onde ela possa ter a autonomia de estar explorando e estar agindo por si, que seria o brincar livre que a criança tem na escola waldorf. Isso fortalece esse impulso de atuar por si.

Excesso de imagens prontas e falta de estímulo a criatividade e imaginação: além da criança perder a autonomia de atuação, ela não está criando imagens a partir de si, ela as está recebendo da TV, do celular e etc… seu mundo imagético também vem de fora, assim como o impulso de atuação. Na escola waldorf, os professores narram as histórias para que cada criança crie as imagens na própria cabeça, usando a fantasia e imaginação. Isso é um contato com o mundo interno, isso também fortalece o processo de individuação.

Excesso de memorização de conteúdos prontos sem a possibilidade de interação do pensar próprio da criança ou adolescente: É apresentada uma gama enorme de conteúdos, que são cobrados em provas e testes sem a possibilidade de interação com o pensar individual da criança. Ela simplesmente tem que replicar o conteúdo, muitos deles que não farão o menor sentido posteriormente ou nunca mais terão utilidade… e será cobrado sob pena de reprovação. Tudo que é considerado como verdade e correto é de fora e também anula o contato com o pensar próprio e o mundo interno da criança…

Pergunto: como ir ao mundo com o que trago dentro mim e sentir realização interna?

 

“Não há, basicamente, em nenhum nível, uma educação que não seja a auto-educação. […] Toda educação é auto-educação e nós, como professores e educadores, somos, em realidade, apenas o ambiente da criança educando-se a si própria. Devemos criar o mais propício ambiente para que a criança eduque-se junto a nós, da maneira como ela precisa educar-se por meio de seu destino interior”. 

Rudolf Steiner


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