PROCRASTINAÇÃO – O HÁBITO DE DEIXAR PARA DEPOIS

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PROCRASTINAÇÃO – O HÁBITO DE DEIXAR PARA DEPOIS
Por Fernanda Aquino M. Rizzo | Psicóloga e Terapeuta

A procrastinação não é algo opcional, como uma escolha por exemplo, na vida de um procrastinador ela faz parte da sua configuração mental, do seu dia a dia, e é algo com o qual ele tem muita dificuldade em lidar.

Em sua grande maioria, os procrastinadores convivem com uma eterna batalha entre a parte do seu cérebro que toma as decisões, que aqui chamaremos de TD (Tomador de Decisões), responsável por decidir e realizar tarefas, e a outra parte que aqui chamaremos de NSI (Necessidade de Satisfação Imediata), responsável pela gratificação no presente e por obter prazer.  As duas partes não se entendem entrando em constante conflito e, frequentemente, na cabeça de uma pessoa que é procrastinadora, quem vence é a NSI, o que acarreta num infindável adiamento das tarefas propostas pelo TD. O diálogo interno de um procrastinador é mais ou menos assim:

TD – Vamos levantar, agora é hora de fazermos exercício!

NSI – Por que temos que fazer exercício se podemos descansar um pouco mais e fazer tantas outras coisas mais legais?

TD – Porque precisamos cuidar da nossa saúde.

NSI – Mas não tem nada de divertido em fazer exercício. E se ficarmos um pouco mais na cama e dormirmos mais um pouco, e depois entrarmos no Facebook para lermos as postagens de hoje, e também podemos jogar aquele game no computador? Vai ser bem mais legal, não acha?

TD – É.… tudo bem, acho que podemos fazer o exercício mais tarde.

E assim, a NSI convence o TD e o exercício fica para mais tarde, para o dia seguinte, para a semana que vem, pois, a NSI só se preocupa com o prazer do agora, ignorando tudo o que foi aprendido no passado e sem dar a mínima importância para os resultados a longo prazo, ou seja, desprezando o futuro. Nessa luta árdua, o procrastinador se sente cada vez pior, seu conflito interno se intensifica e acaba causando culpa, ansiedade, medo e raiva de si mesmo, gerando um sentimento de autodesvalorização e incapacidade.

Eventualmente, quando há um prazo importante próximo, ou algum risco de passar vergonha, ou qualquer outra consequência extremamente negativa, o TD ganha força e acaba vencendo a NSI, realizando a tarefa necessária para evitar uma situação constrangedora, ou outras consequências piores. Por exemplo, quando um procrastinador tem uma prova e, ao invés de estudar durante a semana, deixa para estudar na madrugada anterior, ou até mesmo horas antes da prova ser realizada. Essa situação gera estresse e, geralmente, o resultado obtido de algo realizado de última hora não é satisfatório e engatilha um processo interno de autocrítica e punição emocional, e a pessoa se vê presa num ciclo negativo sem fim, pois quanto mais ela procrastina, mais ela se sente incapaz, e quanto mais incapaz ela se sente mais ela procrastina.

A procrastinação é um mau hábito já muito enraizado, um padrão mental sabotador causado por uma baixa autoconfiança e por um sentimento, inconsciente muitas vezes, de ser indigno ou incapaz, e esses sentimentos são muito dolorosos e profundos. É necessário muito mais que disciplina, ou simplesmente mudar um mau hábito, o procrastinador terá que mudar a sua percepção de si mesmo, para que haja uma mudança no padrão de pensamento e, consequentemente, da sua configuração mental.

Então, como um procrastinador pode melhorar e se tornar alguém mais feliz e realizado?

Ele pode buscar ajuda de um psicoterapeuta que o auxilie a perceber e entender seus padrões mentais e a transformá-los, e/ou também de um coach que o ajude a reorganizar e potencializar sua rotina e a cumprir suas tarefas de forma eficiente e duradoura. Pode também começar a fazer pequenas mudanças em sua rotina com persistência e determinação, e essas pequenas transformações farão com que ele ganhe mais autoconfiança dia a dia, percebendo que pode fazer o que quer que seja e obter excelentes resultados a partir do seu esforço.

Aqui estão 5 dicas de como começar esta mudança:

  1. Compreenda que tudo o que fazemos é uma escolha. Reflita sobre as escolhas que você vem fazendo, perceba as suas más escolhas e quais são os momentos realmente importantes para se fazer boas escolhas. Esta reflexão feita de maneira centrada e honesta, pode começar a mudar as suas escolhas, e isso já será um grande passo.
  2. Peça ajuda. Converse com amigos e familiares, conte sobre o que vem passando e sobre a sua decisão e peça para que eles te estimulem e te ajudem a se manter comprometido. Fale sobre sua meta principal e sobre o significado dela para você. Não estamos sozinhos neste mundo, e com a ajuda das pessoas que confiamos e amamos tudo se torna mais fácil.
  3. Descubra formas diferentes de se lembrar de suas tarefas e metas e de tudo que está em jogo, escreva sobre a sua meta final. Relembre-se sempre dos motivos pelos quais você está fazendo isso e do significado que tem para você. Use post its, agenda, alarme do celular, avisos em ímãs de geladeira, etc. O importante é você ir descobrindo o que funciona melhor para você.
  4. Ao cumprir suas tarefas, livre-se das distrações. Foque-se no que realmente tem que ser feito, desligue a TV, desligue o celular ou coloque-o em modo avião se estiver trabalhando com ele, deixe um copo ou garrafa d’água por perto para isso não ser uma desculpa para se levantar e te tirar do foco, se for possível, se desconecte da internet enquanto trabalha, e aos poucos vá eliminando tudo o que te distrai.
  5. Estabeleça semanalmente e escreva metas diárias para serem cumpridas, e negocie com você mesmo uma recompensa ao final dos 7 dias, como por exemplo, “Se eu cumprir todos os dias, durante uma semana, todas as metas propostas mereço um dia livre para fazer o que gosto, ou mereço ir jantar naquele restaurante que quero ir há muito tempo, ou mereço jogar 3 horas de vídeo game sem sentir peso na consciência…”. E tenha certeza que ao cumprir todas as tarefas, você realmente se sentirá merecedor da sua recompensa. Comemore!

 

Lembre-se que as mudanças acontecem de forma gradativa, um passo de cada vez. Um hábito tão arraigado como a procrastinação não muda de uma hora para outra, é necessária uma pequena mudança de cada vez. Conforme você for realizando tarefas sem procrastinar, irá perceber pequenas mudanças em si mesmo e na sua rotina, isso automaticamente elevará a sua autoestima e confiança em si mesmo, impactando diretamente no sentimento de ser capaz e de ter o poder da escolha em suas mãos. O objetivo não é ser perfeito, e sim, melhorar e se superar a cada dia. A cada conquista uma vitória, a cada vitória um motivo para comemorar.

Você é o piloto do seu avião e está no controle da sua vida, escolha mudar agora.

Um comentário sobre “PROCRASTINAÇÃO – O HÁBITO DE DEIXAR PARA DEPOIS

  • Fernanda você conseguiu descrever bem os processos de um procrastinador e seu diálogo interno. Por muitas vezes passei e ainda algumas vezes passo por isso e ter isso na consciência é o primeiro passo para sairmos desse ciclo vicioso.
    Parabéns pelo excelente texto, compartilharei essa semana em milhas redes sociais.

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